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Alessandro, o candidato que quer todos os votos e nenhum compromisso

Alessandro: fala mansa, postura civilizada, frases bem montadas, diversas brigas públicas sem alterar a voz

 

Por FAUSTO LEITE

 

Há sempre um tipo de político que encanta no primeiro olhar. Fala mansa, postura civilizada, frases bem montadas, diversas brigas pública sem alterar a voz. Um diplomata de si mesmo. Em Sergipe, esse personagem atende pelo nome de Alessandro Vieira. E não foi um discurso ao vento. Foi direcionado, com endereço certo, à prefeita Emília Corrêa. Quando ele diz que“a relação pessoal comigo é muito boa, a relação política também é muito boa”, não está apenas descrevendo um cenário, está oferecendo uma ponte, com tapete vermelho, café passado e sorriso ensaiado. Traduzindo para quem já viu esse filme antes, todo mundo é aliado até deixar de ser útil. E todo mundo é adversário até virar oportunidade.

A narrativa dominante é simples e confortável. Alessandro seria o homem do diálogo, da moderação, da política sem gritos. Ele mesmo reforça isso com gosto ao dizer que “nós não nos atacamos em nenhum momento”. É bonito de ouvir, parece até propaganda de curso de oratória. Funciona em entrevista, viraliza em grupo de WhatsApp e agrada quem prefere política sem conflito. Mas política não é missa de domingo. Política é escolha, é corte, é risco. E quem não escolhe lado, invariavelmente escolhe a si mesmo, com uma elegância que impressiona, mas uma consistência que preocupa.

O problema começa quando a versão oficial não encaixa nos fatos. Há menos de dois meses, Alessandro orbitava o grupo do governador Fábio Mitidieri. Era quase satélite. De repente, virou crítico eventual, independente estratégico, homem que “pode dialogar com qualquer tema”. A frase é dele. O movimento também. E não foi uma transição silenciosa. Veio com trilha sonora e recado direto, quando afirmou que “o governador me tirou da chapa, preferiu o André Moura, então ele arque com as consequências”. Tradução simultânea. Saiu contrariado, mas saiu calculando. O detalhe é que esse tipo de deslocamento rápido não é amplitude. É GPS político recalculando rota em tempo real.

E cálculo, quando fica visível demais, perde o charme. Alessandro atacou André Moura com intensidade, depois guardou a espada e pegou o guardanapo. Agora surge em fotos, sorrisos e conversas com Emília Correia, como quem descobre afinidades tardias, tipo amizade de casamento que começa no buffet. Não é a primeira metamorfose. Elegeu-se na onda bolsonarista, surfou o discurso da renovação, depois trocou de maré e passou a orbitar o campo do governo Lula com a leveza de quem muda de aplicativo. Raul Seixas já tinha avisado, a tal da metamorfose ambulante virou método. Política tem memória. O eleitor também. E, no meio desse roteiro, ecoa Caetano, “é que Narciso acha feio o que não é espelho”. O problema é quando o espelho vira móvel e anda pela casa.

Há um conflito psíquico evidente nesse comportamento. Não é ideológico. Não é programático. É de autopreservação com bônus de conveniência. Alessandro não quer perder espaço. Não quer ficar fora do tabuleiro. E, para isso, mantém todas as portas entreabertas, com ar-condicionado ligado e cafezinho servido. Nem entra, nem sai. Nem rompe, nem assume. Um tipo raro de presença ausente, tipo aquele convidado que está em todas as fotos, mas ninguém lembra do que ele disse. Política líquida, para usar um termo elegante. Política sabonete, para usar um termo mais sincero. Em 2018, jurou que queria apenas um mandato, que não cairia nos mimos do Senado. Foi bonito. Emocionante. Quase poesia. Veio o mandato, vieram os mimos, ficaram todos. Emendas, estrutura, visibilidade, agenda cheia e agora uma vontade renovada de continuar. É o desapego mais apegado da história recente.

Enquanto isso, o jogo real acontece. Fábio Mitidieri tenta reorganizar sua base depois de ter anunciado chapa cedo demais, abrindo o apetite de todo mundo antes da hora. André Moura acumula capital político com prefeitos e faz o jogo silencioso de quem sabe contar voto. E Emília Corrêa observa. E aqui entra um detalhe importante. Emília não cai em armadilha de bom moço. Não compra conversa linear em cenário caótico. Ela sabe exatamente o que está fazendo. Não é personagem de foto. É jogadora de xadrez em um tabuleiro onde alguns ainda acham que estão jogando dama. Alessandro circula, leve, solto, repetindo que “são dois adversários políticos que têm tranquilidade para conversar”. A dúvida é prática. Ele quer voto de Emília e de Fábio ao mesmo tempo. Uma mistura que nem laboratório aceita.

O impacto institucional desse comportamento é mais sério do que parece. Política sem definição enfraquece alianças, confunde eleitor e transforma o debate público em um teatro de boas maneiras, com Alessandro no papel principal, trocando de roteiro no meio da peça e ainda pedindo aplauso. Tudo muito educado, tudo muito civilizado, quase um curso de etiqueta política. O problema é que, por trás da elegância, falta densidade. É o político que fala fino, anda leve e pisa em todos os lados ao mesmo tempo, como se estivesse treinando para as Olimpíadas da ambiguidade. O eleitor olha e pergunta se é estratégia ou improviso. E a resposta vem com atraso.

Há também o fator confiança. E aqui não tem maquiagem que resolva. Confiança nasce de previsibilidade. De coerência. De trajetória. Quando um político fala com todos e não se compromete com ninguém, ele manda um recado claro. O projeto é ele. E só. No meio desse cenário, Sergipe assiste a um desfile curioso de fotos, encontros e frases “muito tranquilas”. E uma pergunta que cresce nos bastidores. Alessandro está construindo uma candidatura ou apenas garantindo que, aconteça o que acontecer, ele estará em alguma delas.

No fim das contas, o editorial não é sobre Alessandro. É sobre um tipo de política que se apresenta como civilizada, mas opera como conveniente. Que fala em diálogo, mas foge de decisão. Que promete desapego e pratica permanência. E que, quando precisa escolher, prefere negociar consigo mesmo. Porque, como já ensinava Caetano, “quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto”. Talvez porque, nesse jogo, o rosto não é fixo. É versão.