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Sergipe entre palanque, helicóptero e promessa: quando o governo corre atrás do prejuízo político

Mitidieri x Valmir: uma briga que o “pato” está ganhando na capital e no interior

Por FAUSTO LEITE

 

A semana foi intensa em Sergipe, mas não exatamente pelo que o povo esperava. O que se viu foi um governo tentando ocupar espaço, reagir rápido e mostrar presença. O programa “Sergipe Aqui” em Itabaiana virou vitrine. Mais de 160 serviços anunciados, estrutura montada, caravanas organizadas. Mas a pergunta que ficou no ar foi simples: serviço para quem? Porque, no chão, o que se viu foi mais movimentação política do que atendimento real ao povo itabaianense.

Prefeitos do interior chegaram em peso, trouxeram suas caravanas, mobilizaram suas bases. A cidade virou ponto de encontro político. Enquanto isso, muitos moradores de Itabaiana sequer sentiram o impacto direto dos tais serviços. O evento teve café, teve almoço, teve jantar, teve estrutura, teve discurso. Mas faltou o essencial: resultado perceptível para quem realmente mora ali. O que era para ser política pública virou demonstração de força.

E não foi por acaso. Itabaiana hoje é território estratégico. É o centro de gravidade de uma disputa que já começou. O crescimento de Valmir de Francisquinho não é mais ignorado. Pelo contrário. É temido. E o movimento do governo em levar o “Sergipe Aqui” para lá tem leitura clara: ocupar espaço antes que o adversário ocupe de vez. Não é sobre serviço. É sobre território político.

Enquanto isso, o mesmo governo que monta palco em Itabaiana também corre para apagar incêndio no abastecimento de água. O rompimento da adutora virou mais um capítulo de uma crise que insiste em se repetir. O governador Fábio Mitidieri sobrevoou a área, fez vistoria, apareceu. Tudo rápido. Tudo visível. Mas a recorrência do problema mostra que a resposta continua sendo mais emergencial do que estrutural.

O helicóptero, aliás, virou personagem central. Está voando mais, aparecendo mais, sendo usado com frequência. E isso chama atenção. Não pela necessidade pontual, mas pela repetição. Enquanto o governo ganha agilidade no ar, o sistema de abastecimento continua lento no chão. E essa diferença começa a incomodar. Porque gestão pública não pode ser só velocidade de resposta. Precisa ser capacidade de evitar o problema.

No meio disso tudo, a crise da água continua sendo o pano de fundo mais grave. A entrada da Iguá Saneamento prometeu modernização. Mas o que se vê é um sistema ainda instável, com falhas recorrentes e uma população que segue pagando mais caro por um serviço que não entrega segurança. Mudaram os contratos, mudaram os discursos, mas a torneira continua sendo o termômetro da frustração.

E enquanto o governo tenta se reposicionar, mostra que o ambiente já está completamente contaminado pela disputa política. Programas de rádio, pressão, narrativas, ataques e contra-ataques. A famosa “10” virou instrumento de mobilização, de recado, de disputa. Não se fala mais só de água. Fala-se de poder, de eleição, de controle de narrativa. E isso muda tudo.

Para fechar o roteiro, o fim de semana do governador ainda teve espaço para agenda simbólica. Passeio no calçadão, caminhada com a esposa, visita à obra do complexo do anel viário. Tudo registrado, tudo publicado. O problema é que, enquanto a imagem circula, o problema permanece. E a população percebe. Porque não é falta de presença. É falta de solução.

No fim, Sergipe vive um momento claro. De um lado, um governo que tenta reagir, ocupar espaço e conter desgaste. Do outro, uma oposição que cresce, pressiona e se organiza. E no meio disso tudo, o cidadão, mais uma vez, esperando o básico. Porque, no final, não importa evento, não importa helicóptero, não importa disputa. O que importa é resultado. E esse ainda está devendo.