Por FAUSTO LEITE
Valmir de Francisquinho entrou na entrevista igual caminhão descendo a serra de Itabaiana sem freio moral contra o sistemão. Não foi entrevista, foi praticamente um arrastão político ao vivo. O homem começou lembrando da trajetória dele e já mandou logo o recado no estilo itabaianense raiz. “Eu não vim de família rica não, meu amigo. Não nasci em berço de ouro não. Eu vim foi da luta.” E nisso ele bate forte, porque enquanto muito político parece ter sido criado dentro de gabinete com ar-condicionado, o Pato fala como quem ainda sabe quanto custa um saco de castanha e uma feira no sábado.
O momento mais engraçado foi quando ele começou a explicar economia do jeito que só um itabaianense explica. Enquanto os técnicos do governo falam em ativos, financiamento e equilíbrio fiscal, Valmir resumiu tudo numa frase que qualquer dona Maria entende na porta de casa. “Se você tinha duas casas e vendeu uma, você ficou mais pobre.” Pronto. Em dez segundos ele fez mais barulho do que meia dúzia de economista com PowerPoint e palavra em inglês. E ainda deixou no ar o medo do Banese entrar na promoção depois da Deso. Os banesianos já devem estar dormindo agarrados no carnê da previdência.
Outra parte que deu risada até no rádio foi quando ele falou do governador e da turma do empréstimo. Valmir praticamente desenhou o Estado como aquele cidadão que passa o cartão em tudo, compra sem olhar saldo e depois fica rezando pra não chegar a fatura. O homem falou de dívida, falou de FPE, falou de empréstimo garantido e deixou no ar aquele clima de “daqui a pouco vão vender até o cafezinho do Palácio”. E o mais engraçado é que ele fala tudo isso com aquela calma de quem está contando história em mesa de bar tomando café com bolo de macaxeira.
Mas o auge da entrevista foi quando Valmir começou a desfilar obra igual caminhoneiro mostrando nota de frete. Foi posto de saúde pra todo lado, escola, creche, praça, sala de aula, unidade médica, povoado reformado e bairro crescendo. O homem praticamente transformou a entrevista numa excursão guiada de Itabaiana. E ainda desafiou quem quiser ir lá conferir. Nesse momento, muita gente do sistema deve ter começado a suar frio igual tampa de panela no fogo alto. Porque promessa o eleitor esquece. Obra o eleitor aponta com o dedo.
E claro que não faltou a velha pancada no “sistemão”, como bem apelidou a prefeita Emília Corrêa. Valmir falou de imprensa alinhada, de político comprado, de prefeito pressionado e daquele velho modelo onde meia dúzia acha que manda em Sergipe inteiro. Só que ele faz isso de um jeito curioso. Não parece raivoso. Parece um homem indignado contando causos. É como se estivesse numa feira dizendo “rapaz, tu não sabe da última”. E talvez seja exatamente isso que deixa os adversários aperreados. Porque Valmir não fala como político tradicional. Fala como povo. E quando político começa a falar a língua do povo, meu amigo… aí o rádio pega fogo.