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A dor humana não tem calendário


Ao longo da vida, aprendi que algumas dores sangram sem deixar marcas visíveis. Elas caminham pelas ruas, ocupam escritórios, entram nas salas de aula, sentam-se à mesa com as famílias e, muitas vezes, dormem ao nosso lado sem que ninguém perceba.

Há uma contradição que precisamos enfrentar: falamos cada vez mais sobre saúde mental, mas ainda temos dificuldade de reconhecer o sofrimento quando ele não se apresenta de maneira evidente.

A pessoa pode continuar trabalhando, estudando, cuidando dos filhos, cumprindo compromissos e publicando fotografias sorrindo enquanto enfrenta, em silêncio, uma batalha que ninguém conhece.

É por isso que campanhas de conscientização são importantes. Elas ajudam a retirar determinados assuntos do silêncio, estimulam conversas e podem aproximar pessoas de informação e de ajuda.

Mas conscientização não pode ser confundida com solução.

O suicídio não acontece apenas em setembro. A depressão não começa no primeiro dia do mês e termina no último. A ansiedade não respeita calendário. O sofrimento emocional não espera uma campanha para aparecer.

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Os números ajudam a dimensionar aquilo que, muitas vezes, preferimos não enxergar.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos no mundo. Para cada morte, estima-se que existam mais de 20 tentativas. O suicídio está entre as principais causas de morte de jovens entre 15 e 29 anos.

No Brasil, o cenário também exige atenção. Um boletim epidemiológico do Ministério da Saúde identificou mais de 15,5 mil suicídios somente em 2021, o equivalente a uma morte a cada 34 minutos. O documento também aponta uma tendência de aumento das taxas de mortalidade por suicídio no país.

Mas talvez os números mais difíceis de ignorar estejam entre os adolescentes.

A OMS estima que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com alguma condição de saúde mental e alerta para a insuficiência de acesso a cuidados adequados Foto: Pixabay

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde e com apoio do Ministério da Educação, revela que 18,5% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram ter sentido, na maioria das vezes ou sempre, que “a vida não vale a pena ser vivida” nos 30 dias anteriores à pesquisa. Mais de três em cada dez, 32%, afirmaram ter sentido vontade de se machucar de propósito nos 12 meses anteriores.

Esses números não significam que todos esses adolescentes estejam em risco iminente de suicídio. E é importante fazer essa distinção. Mas eles revelam uma dimensão de sofrimento que não pode ser tratada como uma simples fase da adolescência ou como falta de força de vontade.

Também não podemos ignorar que quase metade dos adolescentes entrevistados, 49,7%, afirmou sentir preocupação com coisas comuns do dia a dia na maioria das vezes ou sempre. Outros 26,1% disseram sentir que ninguém se preocupa com eles.

Que sociedade estamos construindo quando tantos jovens experimentam a sensação de que não são importantes para ninguém?

Essa pergunta precisa sair das campanhas e chegar às escolas, às famílias, aos ambientes de trabalho, aos serviços de saúde e às políticas públicas.

Porque falar de saúde mental não significa apenas falar de diagnóstico. Significa falar de vínculos, pertencimento, condições de trabalho, violência, solidão, desigualdade, acesso à saúde, relações familiares, adolescência, envelhecimento, perdas, luto e sobrecarga, além de todas as circunstâncias que podem produzir sofrimento persistente na vida de uma pessoa.

A própria OMS ressalta que o suicídio é um fenômeno multifatorial. Entre os fatores associados estão experiências de perda, solidão, discriminação, conflitos, problemas financeiros, violência, abuso, doenças e crises pessoais.

Isso significa que não existe uma única explicação para o sofrimento e, consequentemente, também não existe uma única resposta.

Uma frase motivacional não substitui atendimento psicológico. Uma palestra não substitui uma política pública. Um post nas redes sociais não substitui uma rede de cuidado.

E é justamente aí que precisamos amadurecer nosso debate.

Não basta dizer “fale sobre isso”. Precisamos perguntar: fale com quem? Onde? Como? Com qual acesso?

Se uma pessoa finalmente reúne coragem para pedir ajuda, mas encontra meses de espera, serviços insuficientes, atendimento inacessível ou uma rede que não consegue acolhê-la, transformamos conscientização em frustração.

A OMS estima que mais de 1 bilhão de pessoas no mundo vivem com alguma condição de saúde mental e alerta para a insuficiência de acesso a cuidados adequados. Depressão e ansiedade, sozinhas, estão associadas a perdas econômicas que chegam a US$ 1 trilhão por ano em produtividade.

Portanto, saúde mental não é apenas uma questão individual. É também uma questão social, econômica e de saúde pública.

Precisamos deixar de perguntar apenas “o que há de errado com essa pessoa?” e começar a perguntar também “o que está acontecendo ao redor dela?”.

Precisamos olhar para ambientes de trabalho que naturalizam o esgotamento, para escolas que nem sempre conseguem reconhecer o sofrimento de seus estudantes, para famílias que foram ensinadas a confundir silêncio com força e para uma sociedade que frequentemente valoriza a produtividade mais do que a existência.

Também precisamos reaprender a ouvir. Não a escuta automática de quem pergunta “tudo bem?” esperando como resposta um simples “tudo”, mas aquela escuta que percebe quando o comportamento muda, quando o isolamento aumenta, quando a pessoa deixa de fazer aquilo de que gostava ou quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço.

Não precisamos ser especialistas para demonstrar cuidado. Mas precisamos saber reconhecer nossos limites e compreender quando é necessário incentivar a busca por ajuda profissional.

Por trás de cada estatística existe uma história. Existe alguém que foi filho, alguém que foi mãe ou pai, alguém que teve amigos, alguém que trabalhou, estudou, amou e sonhou. Existe alguém que talvez tenha vivido uma dor que não conseguiu transformar em palavras.

É por isso que campanhas como o Setembro Amarelo têm valor. Elas podem abrir portas para conversas que precisam acontecer.

Mas o verdadeiro desafio começa quando a campanha termina.

Porque uma sociedade verdadeiramente comprometida com a vida não pode se mobilizar apenas durante um mês.

Precisamos transformar conscientização em política pública, informação em acesso, escuta em acolhimento e acolhimento em cuidado. Precisamos construir uma cultura em que pedir ajuda não seja motivo de vergonha, em que demonstrar vulnerabilidade não seja confundido com fraqueza e em que perguntar “como você está?” não seja apenas uma formalidade.

Principalmente, precisamos construir uma sociedade em que ninguém precise chegar ao limite para finalmente ser ouvido.

Setembro pode ser um convite. A responsabilidade, porém, é permanente.

A dor humana não tem calendário. E o cuidado com a vida também não deveria ter.



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