Por TONI ALCÂNTARA
A última sexta-feira, dia 29, em Sergipe, não foi apenas um dia de agendas institucionais e anúncios bilionários. Foi, acima de tudo, um espelho da realpolitik em sua versão mais nua e crua. A passagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo estado serviu como o palco perfeito para um espetáculo onde o pragmatismo engoliu as ideologias, as conveniências superaram o passado recente e o futuro eleitoral começou a ser desenhado a golpes de caneta e vaias ensurdecedoras.
O primeiro grande sintoma desse caldeirão político veio das galerias. O senador Laércio Oliveira (PP), que tentou equilibrar-se no trapézio de participar de um ato do governo federal para colher os louros das entregas na área de energia e fertilizantes, sentiu o peso do “chão de fábrica”. As vaias maciças que ecoaram quando seu nome foi anunciado mostraram que a polarização nacional não perdoa o transformismo político de ocasião. Historicamente alinhado ao bolsonarismo e aos interesses do grande empresariado, Laércio descobriu, da pior forma, que a militância de esquerda tem memória longa. Não há verba ou tapete vermelho institucional que apague, na cabeça do eleitor, a biografia de quem sempre jogou no campo oposto.
Lula, por sua vez, operou em seu habitat natural. O anúncio cinematográfico de mais de R$ 70 bilhões em investimentos estruturantes para o estado — com destaque para o megaprojeto Sergipe Águas Profundas — traz o cheiro inconfundível das velhas promessas eleitoreiras que ficam só no papel e nunca se realizam. Embora os investimentos na Petrobras e na Fafen sejam cruciais para a economia sergipana, a roupagem e o timing do evento deixam claro o uso, de fachada, da máquina pública como o maior cabo eleitoral do país. O Planalto sabe que o Nordeste é sua fortaleza, e irrigar Sergipe com promessas de cifras astronômicas é a estratégia para garantir que o estado continue rezando na cartilha lulista, amarrando prefeitos e lideranças locais ao cordão umbilical dos recursos federais. Só faltou o mais importante: combinar com o povo que vota e elege quem ele quer.
Mas o movimento mais emblemático de todo esse xadrez atende pelo nome de Fábio Mitidieri (PSD). O governador de Sergipe deu uma demonstração clássica daquilo que na política flerta perigosamente com o puro oportunismo e demonstrou, na prática, sua verdadeira “cara de pau” oportunista e eleitoreira. Eleito em 2022 após um embate duríssimo contra o PT local, Mitidieri parece ter esquecido as feridas daquela campanha e as lealdades dos aliados de primeira hora que o carregaram até o Palácio de Despachos. Ao ensaiar um alinhamento e priorizar o senador Rogério Carvalho (PT) em detrimento de seus antigos parceiros de grupo, o governador escolheu esquecer as duras críticas e a pecha de corrupto declarada recentemente pelo senador petista.
Para Mitidieri, o cálculo é puramente pragmático, ainda que eticamente questionável para sua base original: bater de frente com um governo federal que promete despejar bilhões no estado seria um suicídio administrativo. Isolar a direita e colar na imagem de Rogério e Lula é a sua apólice de seguro para governar sem sobressaltos e tentar pavimentar sua sobrevivência política, que já começa a deixar sinais claros de que acabou o tempo de duração para ser enterrado politicamente por boa parte dos eleitores que votaram nele em 2022.
A sexta-feira última foi marcada pela decepção para governistas de Sergipe e deixou uma lição clara para quem acompanha a política no estado: no tabuleiro do poder, a coerência é um luxo que poucos mantêm. Entre as promessas de Lula que o povo quer acreditar, o pragmatismo camaleônico de Mitidieri e o preço cobrado pelas urnas a Laércio, Sergipe assistiu a uma verdadeira tragédia eleitoral quase anunciada. E, como de costume, os princípios foram os primeiros a ficar pelo caminho.