“Caso Master é de esquerda e de direita, porque está em todo lugar, com agentes de todos os lados”
Andreazza fala sobre a ação da PF, a nona fase da Operação Compliance Zero que teve como alvo principal de busca e apreensão o senador Jaques Wagner (PT). Crédito: Estadão
Na terça-feira, 16 de junho, dois dias antes da operação policial contra si, Jaques Wagner, líder do governo Lula, subiu à tribuna do Senado para se solidarizar com Davi Alcolumbre, indignado o presidente do Congresso ante a notícia – baseada supostamente num vazamento da delação de Daniel Vorcaro – de que teria levado US$ 30 milhões em propina.
(Há mensagens do banqueiro à noiva, de agosto de 2025, em que relata boa reunião, “até meia-noite”, na residência oficial da Presidência do Senado, na qual teria aparecido – “kkk” – “sem ele saber”, jactando-se, “wow”, de ser recebido fora de agenda, na surpresa. “Terça teremos outra.”)
O discurso de Alcolumbre, em que a acusação foi rechaçada, teve dois propósitos: transformar, sob a corrupção xandônica da palavra, a denúncia contra o indivíduo senador Davi em “ataque ao Senado”, expediente por meio do qual ele se torna o próprio Poder da República; e disparar a ordem unida, um tocar reunir sob o sentimento – medo – corporativista, do “eu sou você amanhã”.

Davi Alcolumbre e Jaques Wagner conversam no plenário do Senado Foto: Carlos Moura/Agência Senado
Estão aí Ciro Nogueira e o cavalo manco Flávio Bolsonaro… Não faltavam ali no Plenário – e é com preguiça que o cronista observa o esforço por classificar o caso Master como de direita ou esquerda – os que, tendo deitado na rede vorcárica, captariam o recado. E lá foi Wagner então, compassivo. Criticou a lei de colaboração premiada no Brasil, país em que presos seriam coagidos a delatar, de repente lembrado do estado democrático de direito, tomado daquele gilmarmendismo que faltara ao processo de delação de Mauro Cid. E disse que o fazia mui à vontade, porque não teria qualquer relação com Vorcaro.
Não mentia. A relação – de amizade mesmo – era com o sócio de Vorcaro, Augusto Lima, a quem chama fraternalmente de Guga e a quem pediu que comprasse um apartamento, que recompraria depois. As gestões para a compra, a cerca de R$ 2.500.00,00, estão documentadas na investigação da Polícia Federal, inclusive com a suspeita de constituição de fachada – patrimônio em nome de terceiro – para ocultar a verdadeira propriedade. A explicação de que recompraria o imóvel adiante surgiu, claro, com o troço já exposto.
Essa amizade, robustecida há quase dez anos, deriva decerto da gratidão. Em 2018, governador da Bahia Rui Costa, o secretário de Desenvolvimento Jaques Wagner aceitou – sob sugestão de Lima – incrementar a fracassada tentativa de privatizar EBAL, Empresa Brasileira de Alimentos, dona da rede de supermercados Cesta do Povo, que vendia produtos subsidiados aos servidores estaduais, com um pacote de crédito consignado. Veio o terceiro leilão – e, dessa vez, com comprador: o próprio Lima. Nascia o Credcesta.
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Pouco depois, o governo da Bahia daria exclusividade ao Credcesta – a Guga – para explorar, por quinze anos, a oferta de consignado a 400 mil funcionários do Estado. Precisando de lastro para bancar o movimento, Lima logo se associaria a Vorcaro – a origem do Master como o conheceríamos, aquele que desembarcaria em Brasília e que, distribuindo jatinhos, ganharia o mundo. (O Credcesta chegaria a 24 Estados.)
A operação da PF contra Wagner não teve como objeto a origem dos afetos. Tem como matéria atividades contemporâneas; as relações antigas, sob “elevado grau de confiança pessoal”, fundamentando “a realização de tratativas reservadas em prol da defesa dos interesses privados do Banco Master” – no que seria mais um mandato parlamentar a serviço de, entre outras cargas, viabilizar a venda de parte do Master ao BRB.
No dia seguinte ao anúncio do memorando de entendimento para o negócio, 29 de março de 2025, Lima – feliz com o que parecia ser a salvação – escreveu a Wagner: “Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso”.
No discurso a Alcolumbre, Wagner também disse: “Não tenho nenhum negócio [com Vorcaro]. Aliás, não tenho nem CNPJ. Eu só tenho CPF.” Não mentia. CNPJ quem têm são os parentes. O enteado, por exemplo, vinculado à BN Financeira, para a qual a rede vorcárica – na porção da trama costurada por Lima – transferira R$ 3.500.000,00. Haveria mais milhões, a título de propina, paga “direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado”. Padrão.
Alcolumbre, homem de raro senso de oportunidade, farejando o sangue na água, solidário a Wagner como lhe fora Wagner, chamou a presunção de inocência – aquela, específica aos poderosos com foro no STF, que deixa nem sequer investigar – e mandou fechar o Estreito de Ormuz contra qualquer apuração sobre senadores, sejam do PT ou do PL. Passa nada, e ninguém solta a mão de ninguém.
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