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Deepfakes em perfis de apoio a Lula e Flávio somam milhões de interações e testam regras do TSE


‘IA nas eleições: o que pode e o que não pode nas campanhas de 2026’

‘TSE aprova novas regras para conter a circulação de material manipulado por inteligência artificial durante a disputa eleitoral’. Crédito: Hugo Henud | Estadão

Deepfakes publicados por perfis de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já acumulam milhões de interações nas redes sociais e testam os limites impostos pela Justiça Eleitoral ao uso da inteligência artificial na campanha. As regras eleitorais proíbem esse tipo de manipulação, mas conteúdos desse tipo seguem circulando para atacar o principal rival na disputa, explorando crises recentes, ou para exaltar o candidato apoiado.

Ao longo de cinco dias, o Estadão monitorou perfis com mais de 100 mil seguidores dedicados ao apoio aos dois candidatos e identificou 25 vídeos produzidos ou manipulados com inteligência artificial para reproduzir ou alterar imagens e vozes dos próprios presidenciáveis, os chamados deepfakes. Juntas, as publicações somam milhões de interações. Das 25, 22 não traziam qualquer identificação sobre o uso da tecnologia, embora as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) exijam que conteúdos sintéticos usados em propaganda eleitoral informem que houve manipulação. A contagem de interações considera as métricas públicas de curtidas, republicações e compartilhamentos exibidas nas publicações analisadas.

Deepfakes em perfis de apoio a Lula e Flávio somam milhões de interações e testam regras do TSE Foto: Pedro Kirilos/Wilton Junior/Estadão

Para juristas, o avanço dessas publicações mostra que o desafio da Justiça Eleitoral vai além de estabelecer regras contra deepfakes. É preciso fazê-las valer antes que os conteúdos se espalhem. Ao mesmo tempo, persistem dúvidas sobre até onde vai a proibição e quais usos da tecnologia devem levar à retirada de uma publicação.

Entre os perfis monitorados está uma conta de apoio a Lula com mais de 1 milhão de seguidores. Criado em 2022 e verificado no Instagram, o perfil inclui em sua descrição um link para o “Pode Espalhar”, site criado pelo PT que disponibiliza conteúdos prontos para compartilhamento nas redes sociais.

Em uma das publicações, avatares de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, aparecem juntos ao som de uma paródia de música sertaneja. Flávio telefona para Vorcaro e, em seguida, surge em um banheiro cercado por notas de R$ 100. A peça faz referência às mensagens reveladas entre os dois sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A publicação soma 136 mil curtidas, 22 mil republicações e 134 mil compartilhamentos.

Outro perfil de apoio a Lula, também com mais de 1 milhão de seguidores, publicou uma montagem em que um avatar de Flávio aparece diante de uma bandeira dos Estados Unidos e toca um teclado cercado por imagens de Eduardo Bolsonaro, Donald Trump e Vorcaro, além de faixas com a inscrição “Tariflávio”.

A peça mistura o caso Banco Master à atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos em 2025, quando o então deputado buscou apoio do governo Trump contra decisões de autoridades brasileiras e em defesa do pai, Jair Bolsonaro, durante o julgamento por tentativa de golpe de Estado. Nos meses seguintes, o governo americano elevou tarifas sobre produtos brasileiros, revogou vistos de autoridades e impôs sanções econômicas ao ministro Alexandre de Moraes. A publicação registra 72 mil curtidas, 9 mil republicações e 49 mil compartilhamentos.

Do outro lado, um perfil de apoio a Flávio Bolsonaro com mais de 2 milhões de seguidores publicou um vídeo em que um avatar de Lula aparece dançando com roupa de presidiário enquanto surgem os dizeres “O Brasil do PT: INSS, impunidade, Lava Jato, Lulinha e Marcola”. A peça reúne referências usadas pela oposição para associar o presidente e seu entorno a suspeitas de corrupção e ao escândalo das fraudes no INSS. O vídeo soma 103 mil curtidas, 18 mil republicações e 58 mil compartilhamentos.

A referência ao INSS alcança também Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente e alvo de investigações que apuram suspeitas de tráfico de influência relacionadas a negócios de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Já Marcola, nesse contexto, é uma referência a Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete de Lula. Marcola deixou a campanha após a divulgação de pagamentos feitos a ele pela lobista Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e investigada por sua relação com o Careca do INSS.

Em outra página favorável a Flávio, com 533 mil seguidores, um vídeo produzido com inteligência artificial simula um encontro entre Lula e uma versão mais jovem de si próprio. Na conversa fictícia, o presidente conta ao “Lula do passado” que chegou à Presidência e, em tom de sátira, associa sua trajetória e a do PT a escândalos como Mensalão e Petrolão. A publicação soma 294 mil curtidas, 40 mil republicações e 289 mil compartilhamentos.

Fernando Naisser, professor da FGV, avalia que publicações com essas características são irregulares e ressalta que as regras sobre o uso de inteligência artificial na campanha não se restringem a candidatos e partidos, mas também alcançam eleitores e responsáveis por páginas de apoio.

Para o professor, embora seja difícil fiscalizar perfis pequenos, contas de maior alcance e repercussão tendem a chamar a atenção das campanhas atingidas e podem ser alvo de ações na Justiça Eleitoral, com retirada do conteúdo e aplicação de multas aos responsáveis.

Naisser também critica a demora do TSE em estabelecer uma interpretação mais clara sobre o alcance da proibição. “O TSE passa um sinal ruim ao não levar isso para debate público”, afirma. Para ele, a ausência de uma definição deixa candidatos, partidos, marqueteiros e eleitores sem um parâmetro claro sobre o que será admitido durante a campanha.

Uma das controvérsias já está no próprio TSE. A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu a retirada do ar dos perfis “Dona Maria”, que utilizam uma personagem criada por inteligência artificial e viralizaram com vídeos críticos a Lula e à esquerda. O processo ainda não teve decisão final.

Outra definição é aguardada no caso do vídeo que reproduziu, por inteligência artificial, a imagem e a voz de Jair Bolsonaro na convenção que lançou Flávio à Presidência. Uma reunião interna dos ministros para discutir o tema chegou a ser adiada e, realizada na terça-feira, 18, terminou sem previsão para o julgamento da ação.

O processo é considerado relevante porque deverá ajudar a fixar os parâmetros para o chamado “deepfake do bem” e esclarecer se a proibição também alcança conteúdos sintéticos usados para beneficiar o próprio candidato, mesmo quando não têm como objetivo atacar diretamente um adversário.

Para Naisser, a vedação deve alcançar também esses casos. A advogada eleitoral e professora do IDP Marilda Silveira faz avaliação semelhante e afirma que votos já proferidos pelo TSE na última semana indicam resistência à criação de uma categoria de deepfake permitida apenas por favorecer um candidato. “Quando configura deepfake, ou seja, um vídeo hiper-realista de algo que não aconteceu, o conteúdo é irregular”, afirma.

A tendência mais restritiva ao uso de deepfakes citada pela professora apareceu em julgamentos no plenário virtual na última semana. Em uma das representações analisadas, que pedia a retirada de conteúdo sintético, o relator, André Mendonça, adotou uma interpretação mais estreita do conceito de deepfake e negou o pedido liminar de remoção.

A ministra Estela Aranha abriu divergência com uma leitura mais abrangente da resolução. Para essa corrente, uma vez caracterizado o deepfake com finalidade eleitoral, o conteúdo deve ser retirado do ar, sem necessidade de demonstrar adicionalmente seu potencial para enganar o eleitor. A maioria acompanhou a divergência, mas os julgamentos foram suspensos após pedido de vista do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques.

Como mostrou o Estadão, as zonas cinzentas em torno do alcance da proibição já eram apontadas por juristas em março, quando o TSE atualizou as regras sobre inteligência artificial para as eleições de 2026.

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