Por Pastor Jorge Abreu
Depois da Segunda Guerra Mundial, o litoral sergipano ganhou uma marca que ficaria para sempre na memória dos moradores da Praia do Saco, em Estância. Foi ali que o navio Santa Cruz, avariado em alto-mar, ficou encalhado na areia. O tempo passou, as ondas bateram, e o que um dia foi uma embarcação imponente virou parte da paisagem.
Nas décadas de 40 e 50, o navio ainda estava quase inteiro. Adultos iam até a praia para observar aquele gigante de ferro parado na areia. Era motivo de curiosidade, de conversa, de registro de fotografias. O Santa Cruz virou ponto de referência. Pescadores usavam como guia. Crianças apontavam de longe.
Mas foi nas décadas de 70 e 80 que a história ganhou outro capítulo. A maresia já tinha feito seu trabalho. O navio não existia mais como navio. O que restava era a carcaça, as ferragens retorcidas, pedaços do casco quase enterrados na areia.
E foi nessa “carcaça sendo devorada pela maresia a cada dia” que uma geração brincou. Jovens de 15 anos transformaram os escombros em parquinho. Subiam, desciam, inventavam histórias de naufrágio e tesouro. Para eles, aquilo não era um navio de guerra. Era liberdade, era infância, era a praia.
Hoje, esses jovens já são senhores. E são os únicos que podem dizer: “Eu lembro. Eu brinquei ali”.
O mar levou o resto. O tempo apagou os vestígios. Mas a memória ficou. Porque o Santa Cruz não foi só um navio encalhado. Foi cenário de vida, de risada, de história contada de pai para filho.
Se você também tem uma lembrança do Santa Cruz, guarde, conte. Porque quando a última pessoa que brincou ali se for, só vai restar a areia e a saudade da Praia do Saco.

*Praia do Saco • Sergipe • 1940 • 1980 – Por Jorge Abreu, Pastor, Psicanalista e Escritor.