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Qualidade da campanha importa mais em 2026 que em eleições passadas


Os três fatores estatísticos que podem decidir as eleições a favor de Lula ou Flávio Bolsonaro

Desidratação dos demais candidatos, movimentação dos indecisos e abstenção podem ter peso fundamental na balança. Crédito: Edição: Júlia Pereira

Em uma eleição equilibrada, a Eurasia Group tem argumentado que a qualidade da campanha eleitoral será um fator decisivo. Nesse quesito, Flávio Bolsonaro tem se destacado até agora, o que ajuda a explicar o empate técnico contra Lula nas simulações de segundo turno, e a chance cada vez mais remota de uma surpresa como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, ou Renan Santos.

Normalmente, a campanha tem importância secundária para o resultado eleitoral. Fatores estruturais, como a taxa de aprovação do governo, são mais úteis para prever o vencedor do que o teatro dos candidatos em debates, entrevistas e peças de propaganda. Este ano, porém, é diferente, porque esses indicadores apontam para uma eleição praticamente empatada. Em um ambiente assim, fatores menores podem desequilibrar a disputa. É isso que está acontecendo, por enquanto, com a diferença de qualidade nas campanhas.

O contexto tem favorecido Flávio. A crise no Supremo alimenta um desejo por mudança em um eleitorado completamente desencantado com a política, apesar das conexões entre Flávio e Daniel Vorcaro, e dos escândalos que continuam a atingir aliados e colegas de partido Foto: Pedro Kirilos/Wilton Junior/Estadão

A bem da verdade, o contexto tem favorecido Flávio. A crise no Supremo alimenta um desejo por mudança em um eleitorado completamente desencantado com a política. Apesar das conexões entre Flávio e Daniel Vorcaro, e dos escândalos que continuam a atingir aliados e colegas de partido, o noticiário atual confere alguma vantagem ao filho do ex-presidente, em comparação com Lula.

Mas a diferença entre a campanha de Flávio e a dos demais candidatos não se explica apenas pelo contexto. O marketing é de qualidade superior. O senador tem sido disciplinado em seus discursos e programas eleitorais, com mensagens relativamente bem focadas em três aspectos: apresentar o candidato como uma versão mais jovem e moderna do pai, enfatizar o medo do crime, e culpar Lula pelo alto custo de vida. Segurança pública e endividamento são temas relevantes para o eleitor, e criam facilmente uma conexão entre o candidato e o público.

Lula, até agora, tem tido mais dificuldades de articular claramente os motivos pelos quais deveria ter mais quatro anos de governo. Suas peças listam vários programas do governo, do Desenrola ao Pe-de-Meia, mas não passaram ainda uma ideia clara de um futuro melhor. É difícil entender porque a campanha não investiu, ainda, em materiais de forte apelo emocional para defender a redução da jornada de trabalho.

A comparação fica ainda mais discrepante com os outros candidatos. Ronaldo Caiado não conseguiu aproveitar o tempo de TV para se destacar em relação aos demais; fez peças tradicionais, que conseguiram manter seu nome no radar, mas não geraram uma fagulha de curiosidade nos eleitores. Seu crescimento, é verdade, pode ter sido abortado pela aparição surpresa de Augusto Cury no início da campanha; mas ele, também, não conseguiu tornar-se conhecido pelo eleitorado mais amplo. Suas chances, agora, dependem cada vez mais de um fato extraordinário, que subitamente enfraqueça Flávio e renove a busca por candidatos alternativos.

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Se essa tendência do início da campanha seguisse sem mudanças, Flávio assumiria a liderança das pesquisas. Mas não se pode prever isso com segurança, porque as campanhas se ajustam, e Lula começa a reagir. Dois pontos merecem atenção nessas próximas semanas: os eventuais ataques contra Flávio, que poderão colocá-lo na defensiva; e as novas iniciativas do governo, depois do reajuste-surpresa do Bolsa Família.

Restrições a apostas virtuais e um novo pacote contra o endividamento das famílias são algumas das medidas na mesa do presidente; em conjunto, elas ajudam a mudar o foco da discussão, deixando a crise do Supremo temporariamente em segundo plano, e possivelmente trazendo a atenção do eleitorado para assuntos nos quais Lula é mais forte.

Por causa desse poder de tomar novas medidas e ditar a agenda, típico dos incumbentes, ainda é cedo para dizer que a eleição passou para as mãos da oposição; mas ela está totalmente em aberto, e o favoritismo de Lula depende cada vez mais de sua capacidade de reação com medidas de impacto e uma campanha mais eficaz.

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