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Quem teme Valmir?

Por Marcos Gentil

 

Desde que o primeiro ser humano cercou a sua área de terra, e disse, de modo triunfal: “Isso aqui é meu.”, surgiu a propriedade privada, como bem explica Jean-Jacques Rousseau, em seu escrito já clássico, Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, e todas as civilizações passaram a conviver com o fato inarredável do status atribuído, aquele decorrente das relações familiares, da classe social, da posição que alguém desfruta na sua vida em sociedade, apenas pelo fato de haver nascido, em contraponto ao status adquirido.

 

Observa-se, portanto, seja qual for a sociedade, de qualquer momento histórico, como deveras explicado por Karl Marx e Friedrich Engels, há os proprietários dos meios de produção, classe então denominada de burguesia, uma minoria, e a maioria esmagadora da sociedade capitalista, formada por indivíduos como este que vos escreve, dono apenas de sua força de trabalho, que formam eu seu conjunto o proletariado:

 

  • “Faltava apenas uma coisa: uma instituição que não só assegurasse as novas riquezas individuais contra as tradições comunistas da constituição gentílica; que não só consagrasse a propriedade privada, antes tão pouco estimada, e fizesse dessa consagração santificadora o objetivo mais elevado da comunidade humana, mas também imprimisse o solo geral do reconhecimento da sociedade às novas formas de aquisição da propriedade, que se desenvolviam umas sobre as outras – a acumulação, portanto, cada vez mais acelerada das riquezas: uma instituição que, em uma palavra, não só perpetuasse a nascente divisão da sociedade em classes, mas também o direito de a classe possuidora explorar a não-possuidora e o domínio da primeira sobre a segunda. E essa instituição nasceu. Inventou-se o Estado.” ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do estado. Rio de Janeiro: Vitória, 1960. pp. 102 e 160.

 

Tal desigualdade resta cada vez mais acentuada, após a queda do muro de Berlim, posto que imersos numa sociedade capitalista neoliberal, em escala global, onde é crescente o escopo de vida de acumular prestígio, poder e riqueza, o que torna os pobres em miseráveis e excluídos, porquanto incapazes de subsistir em uma ordem política que reduz o Estado ao mínimo, no intuito, inclusive, de o revestir de capacidade financeira de sobreviver.

 

Na atual conjuntura político-econômica-financeira que tensiona a sociedade brasileira, há um governo federal, com discurso eleitoreiro de promoção dos menos favorecidos, que os brinda com políticas que demonizam o trabalho, o estudo, o esforço próprio, desde os bancos escolares iniciais, como os programas pé-de-meia e bolsa família, que são extremamente necessários à sobrevivência de muitos, especialmente acostumados desde cedo a um discurso que os desqualifica, enquanto tais políticas, como o sistema de cotas nas universidades públicas, de indiscutível constitucionalidade, mas que torna os carentes em incapazes de lutar por sua sobrevivência no mercado de trabalho, posto que o governo, em qualquer dimensão deveras custosa, deita “em berço esplêndido”, já que as vagas já estão reservadas nas Universidades Públicas para os egressos da escola pública, que agraciada com percentual eterno, persiste em seu discurso eleitoreiro, não desenvolve espírito crítico, e sequer qualifica para o trabalho.  Tudo isto sustentado por escorchante carga tributária, que onera sobremaneira quem produz, o que resulta em desemprego e fuga do setor produtivo para o mercado de capitais, aplicações financeiras, instalação em mercados de tributação única, onde não haja entidades federativas insustentáveis, como Municípios sem atividade econômica, que necessitam manter Governo, Câmara de Vereadores, Secretarias.

 

É nesse turbilhão real, já decantado por Caetano Veloso: “Ou feia ou bonita ninguém acredita na vida real.”, que seguimos imersos em um sistema de democracia representativa, que obriga a participação de todos, com raríssimas exceções aos desobrigados de exercer a capacidade eleitoral ativa, deveras custoso para a sociedade, porquanto conforme a Agência Senado: “Os 30 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vão receber juntos quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral para as eleições de 2026.”, de modo que em 04 de outubro, mais uma vez, estaremos diante da urna eletrônica, como quase tudo hoje, a escolher quem deverá exercer o poder, alternativa melhor que se omitir e ser passivamente governado por um sem número de indivíduos, sem qualquer compromisso com a dura realidade do povo que os elege, que necessita acordar de madrugada, a fim de dirigir-se a um ponto de ônibus, para chegar ao trabalho, e merece um mínimo de conforto e dignidade, que começa a desfrutar, após décadas de descaso, quando a massa era tratada como sardinha em lata, de um mínimo de respeito, na região metropolitana de Aracaju, graças à política de transporte da atual gestão do Município de Aracaju, que ontem, 20 de agosto de 2026, retirou de circulação empresa que segundo divulgado, descumpria diversos deveres na prestação do serviço, como disponibilidade de ônibus com ar condicionado, veículo com mínimo de manutenção, e de modo  rápido e eficiente permutou a concessionária do serviço público municipal.

 

A comunidade menos favorecida não está acostumada a ser bem tratada, e é nesta tensão eleitoral que mais uma vez, o candidato Valmir, punido com a nulidade de seus votos no último pleito para a eleição de Governador do Estado de Sergipe, recuperou a sua elegibilidade em janeiro deste ano, em decorrência de decisão do Superior Tribunal de Justiça, que concedeu efeito suspensivo a condenação anterior,  de modo a restaurar a sua capacidade eleitoral passiva, que o torna apto a disputar o pleito eleitoral para o Governo do Estado de Sergipe.

 

 

Desta feita, a dificuldade do bloco que aí está a governar Sergipe para tornar inelegível Valmir resta mais hercúlea, porquanto a candidata a Vice-Governadora em sua chapa é Priscila Felizola, que após eficiente gestão como Superintendente do SEBRAE, em nível estadual, primeira mulher a ocupar tal posição, é filha do ex-Governador do Estado, Belivaldo Chagas, que apenas por ter ocupado tal cargo, possui uma relação de respeito tanto por parte da classe política, bem como de todos os ocupantes de cargos na dimensão estadual, incluídos aí o Tribunal de Contas, onde o seu genro Carlos Alberto Felizola exerce a função de Conselheiro.

 

Não bastasse, seria por demais óbvio ao eleitor o temor, por parte de quem empreender nova tentativa de tornar Valmir inelegível, de disputar o pleito eleitoral contra aquele que não precisa esforçar-se por falar a linguagem do povo, e possui inquestionável carisma, além de inegáveis resultados eleitorais, que o levaram a ser eleito e reeleito, Prefeito da cidade empreendedora de Itabaiana, por três vezes, e dada a importância de sua pujança econômica e geopolítica, e trajetória política de Valmir, conseguiu eleger o seu filho Ícaro de Valmir, o Deputado Federal mais jovem em 2022, além de seu outro filho, Talysson de Valmir, além de já ter sido eleito Deputado Estadual em 2018, ocupa o cargo de Prefeito do Município de Areia Branca.

 

O temor de disputar o voto na urna com Valmir deriva do fato de que o atual governante, além de tragicamente haver entabulado bilionários empréstimos a serem custeados pela sociedade sergipana, que pouco suspeita para onde vai o valor arrecadado a título de ICMS, – enquanto vai à padaria, ao supermercado, ao posto de combustível, ou mesmo em casa, ao ligar uma lâmpada – alardeia que movimenta a economia com eventos, fato inconteste, que sucedem desde Roma, a política do pão e circo, enquanto se nega a receber o SINTESE, a gerar dificuldade eleitoral extrema, além de contar com a desaprovação da população em relação à concessão dos serviços de água e esgoto, que colocam milhares de sergipanos em estado de desabastecimento, sem falar nos moradores do Guajará, cansados de promessas alardeadas há décadas, e que graças ao descaso a que são submetidos e a obras da concessionária, sequer podem entrar com os seus veículos em suas residências, em muitas de suas vias, ou circular por elas, diante da lama a brotar em seu horizonte.