Search

Schelp: Com custo político indefinido, farra das emendas parece não ter fim


Seis em cada dez municípios já têm ou estão criando emendas parlamentares municipais

Estudo inédito identificou alcance das emendas nos orçamentos municipais e distorções nos recursos. Crédito: Fotografia e som: Isabella Almada | Edição: Júlia Pereira

Emendas pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome (e com restos a pagar, com o perdão do trocadilho fúnebre), mas a farra da destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso Nacional continua.

Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente que, quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos — perpetuando os mesmos grupos de sempre no poder local e em Brasília.

Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino correto.

Trata-se de uma desconfiança que repete, em grande medida, a percepção que se tinha do orçamento secreto, criado em 2020 para salvar a relação do então presidente Jair Bolsonaro com o Congresso.

Desde que foi revelado pelo Estadão, no ano seguinte, o uso distorcido das chamadas emendas de relator passou a ser, corretamente, execrado pela opinião pública — tanto que ninguém queria assumir sua paternidade.

Na campanha presidencial de 2022, Lula usou o orçamento secreto como arma contra seu adversário, a ponto de afirmar que o mecanismo era pior que o Mensalão, o grande escândalo do seu primeiro mandato.

Mas nenhum outro governo pagou tanto em emendas parlamentares. Recentemente, no limite do prazo em ano eleitoral, Lula liberou o valor recorde de quase R$ 34 bilhões em repasses definidos pelos congressistas.

Ao longo de todos esses anos, ficou evidente que a classe política, da situação à oposição, passando pelo Centrão, ignorou a opinião da maioria dos brasileiros, que gostaria de ver o dinheiro dos seus impostos sendo aplicado em políticas públicas de forma técnica, coordenada e transparente.

Quando figuras proeminentes da política, como os ex-deputados federais Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto (este presidente do partido de Flávio Bolsonaro, principal desafiante de Lula à presidência), têm bens bloqueados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de influência indevida sobre a destinação de emendas parlamentares, resta aos eleitores mais atentos reagir com um misto de satisfação — porque a realidade confirmou algo que já acreditavam saber — e de justa indignação.

Eduardo Cunha teve bens bloqueados pelo STF sob suspeita de influência indevida na destinação de emendas parlamentares (André Dusek/Estadão) Foto: André Dusek/Estadão

Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos que a falta de transparência na destinação de emendas produz? Ninguém, na verdade. O Palácio do Planalto vai dizer que é refém de um sistema e que é preciso garantir um mínimo de governabilidade.

A oposição afirma que a Polícia Federal, que faz as investigações, é seletiva nos seus alvos. O Centrão dá de ombros para sua imagem em nível nacional, pois o importante é que as emendas alimentam uma engrenagem eleitoral local e de compra de alianças muito bem azeitada.

Não há fim à vista para a farra das emendas, pois o seu custo político é difuso.



Fonte: LINK